Uma conversa franca

Eu não gosto de mentiras, não suporto, aliás. Aí você me interrompe: "mas ora, D. Beatriz, me poupe, ninguém gosta". E eu lhe digo de volta: "gosta sim, aprova, e até faz também". E eu lhe provo, pelo menos essa é a intenção (e motivação) desse texto.

Já faz um tempo eu estava na escola bíblica e falávamos sobre mentira, um cristão não deve mentir. É pecado. Na minha concepção, ninguém deve. Mas aí eu, intrometida que nem sempre consegue ficar quieta, disse para todos: "mas, eaí, a sociedade está pronta para ouvir a verdade?. Se a pergunta é 'quem aqui nunca disse para o chefe que perdeu o ônibus quando na verdade perdeu a hora?', eu responso meu chefe está disposto a ouvir que o despertador tocou, eu desliguei e dormi de novo?". Acho que não.

Uns meses antes desse episódio do parágrafo anterior, eu estava procurando orçamentos no cabeleireiro. Falei com vários, decidi por um, o mais barato e que também faria um trabalho competente. Quando um dos que procurei veio me perguntar se já tinha me decidido, eu respondi "obrigada pela sua atenção, mas o seu preço está acima do que posso pagar". Levei de volta um "boa sorte". Assim, sem exclamação mesmo. Mas gente, eu só disse a verdade, queria o quê uma mentira doce, algo que não cutucasse a sua mansidão (profissional)?

Sinto muito, sociedade, mas eu não vou mentir apenas para que você se sinta confortável. 

Aquele ditado que a gente escreve no caderno da quarta-série "prefiro uma amarga verdade do que uma doce mentira" não é verdade, pelo menos a maioria, prefere uma confortável mentira do que ouvir de fato a verdade. Eu sei porque eu já disse que cheguei atrasada porque pedir a hora, e não o ônibus; eu já disse verdades que as pessoas devolvem (não pra mim, claro) com um "acredita que ela teve coragem de me dizer que eu cobro caro". Na verdade, eu só queria dizer para o cabeleireiro que eu que sou pobre mesmo.

Mais recente do que os outros fatos dos parágrafos acima, aconteceu uma conversa que não era bem mentira, mas, aos meus olhos, era pra lá de desonesta. Sabe aquele jogando verde pra colher maduro?! Oras bolas, na minha cara? Diga logo e pronto, sejamos honestos. Honestidade faz parte da verdade, se você não pode dizer claramente, será mesmo que você deve dizer? Depois desse dia, passei muitos momentos refletindo sobre o fato e resolvi ter uma conversa franca com você que me lê. O quanto você está disposto a dizer, e principalmente, a ouvir a verdade? A sociedade eu sei que não está. Me pergunto isso também, óbvio. Afinal, a conversa acima também me incomodou porque tinha uma ponta de realidade, na qual a culpada era eu.

foto: Guto Maia/AE


E fazendo uma observação importantíssima: ser sincero, verdadeiro e honesto não significa, de jeito-maneira, ser grosseiro. Tem uma galera aí que confunde sinceridade com tolerância-zero, não baby, você está errado. Falar com sinceridade está bem longe de falar com grosseria. Essas ideias estão atreladas no inconsciente social justamente pelo motivo que este texto está sendo escrito: (quase) ninguém está preparado para ouvir a verdade; alguns estão preparados para dizer, ou pensam que estão; outros confundem com a grosseria, mas quase ninguém ouve e aceita, de verdade.
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